Segunda-feira, Dezembro 06, 2010

O Melhor Presente de Natal do Mundo


A multidão era grande. Um aglomerado humano como poucas vezes se vê durante o ano. Estacionamentos lotados. Há um misto de alegria e tensão no ar. O dinheiro a mais injetado pelos salários adicionais recebidos no final do ano causam nas pessoas uma incontida disposição para realizar alguns de seus sonhos de consumo mais imediato. Já não apenas param em frente as vitrines coloridas, nas quais o verde e o vermelho predominam, entram e sacam seus cartões, dinheiro ou cheques para adquirir roupas, eletrônicos, brinquedos, sapatos, livros, eletrodomésticos...

É Natal. Os símbolos representativos estão por todos os lados. Árvores multicoloridas, o Papai Noel com suas tradicionais vestes em vermelho e branco, as renas e o trenó com um enorme saco de presentes... Há, até, espaço para o menino Jesus na manjedoura, ladeado por seus pais, José e Maria, a espera do dia 25 de dezembro, e da chegada dos três reis magos. 

Crianças se acotovelam pelas lojas de brinquedos. Querem os mais novos objetos do desejo infantil, anunciados na TV ou na Internet com toda a pompa e cerimônia, espetaculares, cheios de luzes, carregados de efeitos especiais. Adultos que pouco parecem diferir no comportamento em relação aos filhos, igualmente buscam o que tanto desejam. Pode ser um novo telefone celular, um sapato importado, aquele vestido branco belíssimo (e caro) para a virada do ano ou mesmo uma nova poltrona para a sala de estar... Tanto faz o modelo, o tamanho, o produto, o que está em jogo é gastar, consumir, comprar e saciar um dos maiores desejos que todos hoje parecem ter...

Seja em ruas de comércio popular ou nos pomposos, seguros e belos shopping centers, ao mesmo tempo em que o êxtase das compras natalinas se estabelece, se vê que as pessoas parecem buscar nestas compras a solução das ansiedades do mundo contemporâneo. Por isso, o que se vê é, ao mesmo tempo, celebração e alegria de um lado, misturadas a um nervoso exercício em que as pessoas se mostram tensas, cansadas e ansiosas em busca de um cálice sagrado que esperam encontrar embalado em um belo papel com fita vermelha a lhe dar mais charme e graça...

Enquanto isso, pelas ruas, embaixo de viadutos, escondidos em esquinas escuras e sujas, algumas pessoas perambulam em busca de alguns trocados, um pouco de comida, lugar para dormir ou ainda uma coberta com a qual possam se proteger das mudanças do tempo. Adultos, crianças e idosos, homens ou mulheres, negros ou brancos... Pouco importa, o que se vê, deste outro lado, não é a fúria consumista ladeada pelo espírito de natal que nos faz, ao menos em tese, mais fraternos e felizes... São pessoas que vivem (ou melhor, sobrevivem) sem que a dignidade faça parte de suas existências...

Imagino um encontro que deve ocorrer de forma até regular por esta época do ano: Pessoas que saem de lojas carregados de sacolas, com os presentes que tanto sonharam, a embalar a ideia da ceia natalina, com a família e amigos reunidos, a cantar "Noite Feliz", a rezar as orações que nos aproximam de Deus e de seus desígnios e, logo ali, adiante, tomando conta de automóveis, esmolando nos sinais de trânsito, catando sucata ou buscando alimento em sacos de lixo, dormindo ao relento ou ainda simplesmente estáticos, paralisados pela fome e pela falta de esperança, outras pessoas...

O Natal feliz é aquele que se realiza não apenas nas compras, nos presentes, na bela ceia ou nos cânticos e orações. Tudo isso faz parte da maior das celebrações cristãs, sem dúvida alguma. Fazemos por merecer e que todas as famílias possam reunir-ser para festejar o mais sagrado dos dias. 

A felicidade está, no entanto, além deste encontro de congraçamento, numa conjunção de forças, em que as mãos se encontram, as pessoas se auxiliam, os que mais precisam têm ajuda, recebem conforto, conseguem a tão sonhada dignidade e configura-se a fraternidade, a irmandade prevista e almejada com o nascimento do menino Jesus. 

Neste Natal, doe um pouco do seu tempo, vá a um asilo, visite uma instituição de apoio a menores carentes, contribua com sua comunidade religiosa para que crianças pobres ganhem um presente, dê alimentos a quem não pode ter uma ceia, converse com quem precisa de palavras de estímulo e apoio, faça com que o maior presente que você pode conceder a alguém realmente se concretize, ofereça sua solidariedade, seu amor...

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

1 comentários:

Carlota disse...

Tempo... Doação! Se todos fizermos um pouco, nosso pequeno gesto representará uma grande ação pelo próximo!