Quarta-feira, Dezembro 15, 2010

A Sociedade da Informação Total ou, o Mundo WikiLeaks


Não existem segredos. Nada pode ser omitido. Tudo tem que ser dito, falado em alto e bom tom, com todas as letras, sem reservas de informação. E quem se negar a entregar os dados completos será, de algum modo, repreendido. Erros relativos a omissão de informações, sendo repetidos, passam da repreensão para punições brandas e, a reincidência ocasionaria multas ou encarceramento...

Omitir é pecado tão mortal quanto mentir. Na Sociedade da Informação Total, como ficaria conhecido o mundo em que o WikiLeaks seria uma referência mais que presente, verdadeiramente onipresente, a verdade é a única saída. 

Estão certos ou errados em assim agir? Esta é uma das grandes questões da humanidade hoje e desde que o mundo é mundo. Qual o custo da verdade? O que acarretam as omissões? A mentira e sua perna curta, para onde leva as pessoas?

Verdade em tempo integral é um sonho impossível no horizonte para o qual pretendemos navegar ou é algo tangível, realizável, passível de se tornar a regra de ouro que regularia nossas vidas? 

Mentira é problema, é dor, é fuga, é erro sempre? Ou há momentos em que é necessária e que, assim sendo, podemos utilizar desse subterfúgio inventado por nós desde os míticos tempos de Adão e Eva, quando a serpente os ludibriou e tem representado a falsidade com que nos envolvem os maus espíritos, os demônios que atormentam o homem e seus descendentes?

Omissão é uma espécie de mentira ou é algo diferente? Para a maior parte das pessoas parece ser aceitável quando comparado com a mentira, mas de certo modo encerra em si o conceito contido em atos como enganar, ludibriar, enrolar...

As pessoas têm direito de omitir? E de mentir? Na hipotética Sociedade da Informação Total isto está completamente descartado. Digam a verdade sempre, nem mesmo a reserva de informação é admitida. 

Se assim fosse, qualquer tipo de dado confidencial, segredos de estado ou informações privilegiadas seriam considerados crimes, alguns até hediondos de acordo com seu alcance, magnitude e interesses. Arquivos que são guardados a peso de ouro pelos governos do mundo inteiro viriam a público, haveria uma grande consternação, uma lavagem de roupa suja, os eventuais responsáveis seriam punidos, talvez até linchados em praça pública, como os novos Judas...

Isso se pensarmos em governos e autoridades... E no caso das pessoas comuns, seus atos do cotidiano, como seriam afetados se suas omissões e mentiras tivessem que ser reveladas. Na Sociedade da Informação em que hoje vivemos a tendência a cada novo dia que passa é que todos estejamos mais e mais expostos, pela rede mundial de computadores. As câmeras nos espreitam e nos obrigam ao comportamento politicamente correto, a lisura total, abaixo o pecado e os erros, as omissões e as mentiras...


Mas, até que ponto somos assim? Perfeitos, puros, politicamente corretos, éticos em tempo integral, maravilhosos mesmo. Seria o Céu na Terra, a redenção total ou, por outro lado, será que o mundo foi destruído e estamos em transição, numa espécie de purgatório, migrando para a outra dimensão. Quem for bom e verdadeiro em tempo integral será selecionado para o Céu e, por sua vez, os falsos, omissos e mentirosos estão fadados a danação do inferno...

Não sou, pessoalmente, contra a verdade e nem a favor da omissão ou da mentira. Mas, analisando friamente, quem entre nós nunca omitiu alguma informação ou mentiu que atire a primeira pedra... E os segredos de estado, até que ponto é preciso revelar tudo? Não há informações que precisam, de fato, ficar durante algum tempo em poder apenas das autoridades?

Autoridades estas que, nos países democráticos, estão em posição de autoridade, poder e governo a partir de nosso consentimento, dentro de regras claras discutidas pelas sociedades livres e colocadas em vigor por parlamentares eleitos pelo povo.

Se confiamos na democracia, ainda que entre as leis estabelecidas estejam, com destaque aquelas que falam sobre o livre trânsito de informações e dados, é preciso que sejamos capazes de compreender que há questões a serem discutidas, tanto no âmbito geral quanto no particular, que precisam ser resguardadas. 

O que está em jogo e talvez muitos não percebam é a privacidade de pessoas e instituições. Sem segredos, as nações ficariam vulneráveis a pessoas e organizações que as ofendem, rechaçam, atacam... Se dados não forem guardados a sete chaves, a competição entre as empresas ficaria desigual e a melhoria de produtos e serviços tão necessária cessaria... Se a privacidade das pessoas não fosse resguardada, suas intimidades viriam a público e famílias ou pessoas poderiam sofrer perdas irreparáveis...

O mundo politicamente correto é miragem se considerarmos os bilhões de habitantes e interesses que habitam o planeta. Não quero, com isso, dizer que não devemos buscar e dar o melhor de nós mesmos na nossa relação com as pessoas, a natureza, as empresas e o mundo como um todo. Pelo contrário, vislumbramos a luz no fim do túnel e corremos para ela, hoje e sempre, mas será que se buscarmos a perfeição, o ideal matemático de Descartes, a vida nos conformes de cada letra impressa em preto e branco não estaremos de algum modo nos anulando quanto ao que nos caracteriza como seres humanos, errantes (em duplo sentido)?

Errar é humano, perdoar é divino. Quem nunca ouviu estes sábios dizeres populares. O que a Sociedade da Informação Total prega é que com o jogo totalmente aberto, de certo modo, o erro seja suprimido e que, com isso, o perdão já não seja necessário (e, por conseguinte, nem mesmo Deus).

Que fique claro, desde já que sou contra a prisão do líder do WikiLeaks. Sou contra tirarem o site do ar. Sou a favor da liberdade de expressão e de imprensa. Mas que é preciso alguma cautela quanto a divulgação de dados sigilosos e confidenciais dos governos do mundo todo, isto é fato. Assim como, que a privacidade de cada um de nós seja mais respeitada, antes que o Grande Irmão de Orwell seja mais que uma figura de ficção ou que o Admirável Mundo Novo de Huxley se tornem a ordem do dia...

Obs. Sobre o Politicamente Correto recomendo a leitura do texto "Breve Manifesto em Favor do Politicamente Incorreto"; Também acerca deste tema destaco o artigo "Abaixo a ditadura e a censura em que vivemos hoje".

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

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